Sobre uns dias no Rio de Janeiro

Depois de duas semanas "morando" no Rio, já posso tecer uma opinião sobre a cidade e a loucura que tá isso aqui com as olimpíadas.

O Rio de Janeiro continua indo. É bom ficar um tempo sem vir aqui, esquecer o Rio, e ver tudo de novo depois com olhos renovados. Que mar maravilhoso, azul ou verde, dependendo do dia. Uma cidade linda, com uma vida borbulhante em um ambiente de decadência e modernidade que andam juntas e de mãos dadas. Já fez todo tipo de clima aqui em 12 dias. Já gripei e já sarei. E como eu estou andando com um fotógrafo que gosta de fazer retratos do trabalhador carioca, já me meti em todo tipo de buraco que você imaginar. 3 dias na Rocinha te ensinam bastante sobre antropologia e a velha e boa rat race. Todo mundo defendendo o seu almoço todo dia e nunca acaba. Visitei os barracões incendiados que eram das principais escolas de samba e que agora são daquelas que conseguiram pegar primeiro a sobra dos carnavais, cheios de alegorias e carros detonados, lugares perfeitos pra rodar um filme de terror da hora. Chegar nas pessoas e perguntar se pode fotografar, algo que eu nunca faço no meu trabalho próprio, mas hey, cada um com seu cada qual. Uma coisa é certa: to aprendendo um monte de coisas. Especialmente a ficar ligado e entrar no clima da loucura urbana carioca.

Como sempre, tô avesso aos jogos olímpicos, o que é muito interessante se você pensar que tá quase todo mundo aqui viajando nessa onda. Nunca vi tanta gente de tanto lugar numa cidade só. Um verdadeiro caldeirão de raças e cores. Sensacional.

Falando no meu trabalho, dei uma volta subindo e descendo a avenida Nossa Senhora de Copacabana. Pau a pau com qualquer grande cidade do mundo em termos de oferta de imagens interessantes. Dá uma olhada na minha pescaria de hoje. Clique nas imagens para ver mais.

Olimpíadas!

Bom, cheguei no Rio. Hoje começa um dos trampos mais legais: trabalhar com o Joe McNally (www.joemcnally.com) cobrindo os jogos olímpicos. Um cara bacana demais, um pusta fotógrafo, e uma oportunidade única. Não sei direito o que eu vou fazer, mas sei que vai ser legal demais passar 23 dias nesta festa maluca. Fico imaginando o quanto o fotógrafo se preparou, a vida toda, pra poder chegar aqui e assumir essa responsabilidade de registrar um evento de tamanha magnitude. E também imagino o quanto cada atleta se preparou pra se arrancar de casa, viajar meio mundo e vir aqui competir. Eu sinto isso também, de certa forma. Toda uma vida de curvas e retas até chegar aqui. Bem, aqui estou, feliz em participar, feliz com a chance de poder registrar o que o meu olho vai ver. Mais em breve. Altius, fortius, citius!

Vamos por partes

Dizem que coisas - boas ou ruins - vêm de três em três. Primeira vez escrevendo num blog, primeiro site de fotografia, primeiro casamento fotografado, primeiro mês sem tabaco. OK, sei que são cinco, mas são todos primeiros, mesmo que a diferença entre serem primeiros bons ou ruins seja questionável. Caí no mundo da fotografia com quase 50 anos e agora não quero outra vida. Acho que nem tenho escolha. Quando criança fui um menino estranho, do tipo que lia "Maiores Assassinatos do Século XIX" com onze anos. Tinha umas manias malucas. Gostava de fotografar com os olhos: ficava olhando em volta o tempo todo observava coisas interessantes, ou diferentes, ou esquisitas, ou tudo junto, e piscava os olhos pra congelar a imagem na memória, e de noite na hora de dormir fazia uma seleção das mais legais do dia. E então, recentemente adquiri uma câmera pra me ajudar com isso. Existe uma enorme vantagem com essa variável na jogada: eu agora posso compartilhar essas imagens com vocês. 

Minha última cerveja acabou de acabar e eu tô aqui sentado, escrevendo e pensando no que fazer da minha vida. Já fui professor de 4 idiomas, de análise sintática do período composto, metodologia da pesquisa científica e mais um monte de outras disciplinas, e lecionei para alunos desde a colônia de férias até a universidade. Já fui bandeirinha de futebol, explorador de cavernas, treinador de professores, doador de sêmen e ator de teatro, entre várias outras coisas. Sou sócio em uma casa de shows, sou DJ, faço tradução simultânea e toco rock em uma pá de bandas. Só que o raio da cerveja acabou de acabar. No fundo do poço havia uma pá. Tô aqui sem cerveja e pensando no que fazer da vida. 

No entanto já fui atropelado duas vezes, caí do quarto andar, tive uma doença rara, meteram um revólver na minha barriga, caí e bati a cabeça e apaguei sem respirar, fiquei preso numa caverna, tive hemorragia interna, tive hipotermia braba, tava num carro que capotou, fiquei preso no elevador, apanhei de 8 caras, mas não morri até hoje. De vez em quando fico pensando, pô, deve ter alguma coisa que eu ainda tenho que fazer. 

E aí há a fotografia. Ah, a fotografia. É do caralho. A fotografia permite exercer a curiosidade da maneira mais infantil aos 50 anos de idade. Ela abre portas. Ela deixa ver as coisas como se fosse pela primeira vez de novo, todas as coisas. As fotos estão aí o tempo inteiro. O mundo te enfia fotos na cara, pela goela abaixo, 24 horas por dia todo dia. Eu me sinto como se eu estivesse sendo esmurrado por imagens o tempo todo. Como se fosse uma briga de turma, eu e aquelas oito pessoas me dando porrada. As imagens me atingem. Cê olha pra um lado, tem uma foto. Olha pro outro, tem doze. E todas essas fotos conversam comigo. Me lembram dos nachos que eu servi pro mexicano no bar. Da enfermeira da clínica de fertilidade abrindo a gaveta e me mostrando as Playboy enquanto me entregava uma placa de petri com aquele olhar de "anda logo que eu ainda tenho que fazer isso mais oito vezes hoje". As imagens que o mundo me apresenta me lembram das roubadas que eu passei com minhas bandas em turnê, e me fazem sentir o quentinho da mulher que eu amo. Me lembram de todas as músicas que eu já ouvi, que eu já compus, que eu já toquei. Ou, dizendo melhor, a maneira eu olho pra essas imagens tem todas essas influências de tudo o que eu já fui, sou e tudo o que eu já fiz, o certo e o errado junto.

Continuo sem cerveja e sem saber o que fazer da vida. Sei que este texto tá muito intimista. Mas eu queria iniciar nossa relação, cara leitora e caro leitor, sendo honesto com vocês. O que tenho agora é uma certeza: fotografia é chapante, é outro planeta, é como a primeira vez de muitas coisas boas da vida se repetindo sempre e sempre, é como aquela tragada absurdamente profunda de ar que o afogado dá quando finalmente chega à superfície. É um meio de expressão e uma necessidade que eu não tinha antes, mas que agora é indispensável. O que eu tenho pra oferecer é de coração, e de uns tempos pra cá não tem um só dia em que eu não pense, planeje ou faça algo relacionado com fotografia. Dá uma olhada aí e vamos conversar. Me diz o que acha.